Quando morava em Salvador BA, eu tive uma oportunidade que havia (sem querer) precognizado aos 15 aos de idade: Assistindo ao programa “Ensaio” da TV Cultura com articipação do cantor Paulinho Moska, eu disse a minha irmã – “Um dia eu quero conhecer esse cara…” –  tamanha era a simpatia e a bondade que se encontravam na sua forma de olhar.

A estética do programa possibilitava com que seu olhar (focalizado no entrevistador oculto) fosse claro e cândido. Suas palavras ao contar sobre processo de composição e sentimentos contidos nas letras despertaram em mim uma profunda sensação de afinidade e cumplicidade.

Anos depois (após muitas voltas na minha vida) eu estava a caminho da casa de um artista plástico, filho do já falecido e laureado artista plástico argentino Caribé, “Ramiro Bernabó”.

Um amigo meu alemão, tambem escultor, Markus Sandner, estava hospedado na “Casa da árvore” na propriedade de Ramiro.

Sua casa era um rodamoinho no qual artistas caiam e se conheciam de forma aleatória e inexplicável. Localizada em um condomínio fechado perto da orla de Piatã, era o local mais apropriado para essas sincronicidades acontecerem.

Quando cheguei, Markus estava “acordando” ás duas da tarde da balada do dia anterior no Pelourinho onde eu, ele e Ramiro conhecemos uns produtores de televisão americanos .Ramiro, como de costume estava curtindo sua eterna depressão e trauma de ser filho de um artista mundialmente reconhecido em seu ateliê, recebendo uma artista plástica (a coincidência mora nessa passagem) baiana, casada com um alemão e radicada em Campinas há 30 anos aproximadamente, Cristina Roese.

Enquanto Ramiro preparava uma ceia para todos, eu conversava com Cristina, que por acaso era amiga de minha ex professora de Artesanato na PUCC (saudades da Silvia) e não entendia porque eu havia trocado minha cidade por Salvador.

Ao saber que eu era de Campinas, Cristina me contou sobre sua obra no Shopping Dom Pedro (o qual eu só viria a conhecer com uma ex-namorada inglêsa um ano depois) e passamos uma hora bastante agradável.

Nos despedimos e em seguida, eu e Markus saímos pensando em onde ir  ou o que fazer naquela tarde maravilhosa em Salvador. Markus me falou sobre um show de graça no Parque Costa Azul.

O show em questão era o acústico do cantor Paulinho Moska.

Foi um dos shows mais perfeitos e agradáveis que assisti na vida.Só voz e violão.

Sua música me tocou de forma muito intima devido ao meu contexto (loucamente livre e descontrolado) na época.

Quando olhei para o lado, lembrei que eu tinha um “passaporte” para qualquer lugar da cidade: Um estrangeiro alto e ariano que poderia ser encontrado a kilometros de distancia e que não falava muito bem português!

Perguntei ao Markus se ele gostaria de conhecer o cantor. Ao ouvir um “JA!” empolgado, nos dirigimos ao backstage onde um segurança parrudo me perguntou o que eu queria. Respondi no meu melhor “baianês” que o gringo queria conhecer o “cantô”. Ele permitiu a entrada do meu amigo mas me barrou – Como o gringo vai falar com o cara? – perguntei falando bravo (pondo em risco meus dentes) e tive minha entrada garantida.

Moska é, como eu suspeitava, uma pessoa iluminada, de uma simplicidade impar e suave no trato com as pessoas.

Falamos da experiência de ser pai (embora eu estivesse “treinando” na época com uma filha que não era minha) e do jogo de palavras na música “Lagrimas de diamante” até então inédita.

Mas tudo isso só me veio a mente pelo fato de eu ter entendido algo escrito por ele muitos anos depois.

Entendi que na vida de um homem passam várias amizades, algumas paixões, poucas influências e apenas UM AMOR.

Tudo que eu gostaria de falar sobre isso ele já havia dito. E, anos depois de eu ter passado por isso tudo, o meu único e verdadeiro “AMOR” entendeu…

Poema declamado ao final da música Vênus:

Não falo do amor romântico,
Aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento.
Relações de dependência e submissão, paixões tristes.
Algumas pessoas confundem isso com amor.
Chamam de amor esse querer escravo,
E pensam que o amor é alguma coisa
Que pode ser definida, explicada, entendida, julgada.
Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro,
Antes de ser experimentado.
Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta.
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita.
O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo?
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine?
Minha resposta? O amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores,
O amor será sempre o desconhecido,
A força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação.
O amor quer ser interferido, quer ser violado,
Quer ser transformado a cada instante.

A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,
Decidimos caminhar pela estrada reta.
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,
E nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.

O amor não é orgânico.
Não é meu coração que sente o amor.
É a minha alma que o saboreia.
Não é no meu sangue que ele ferve.
O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.
Sua força se mistura com a minha
E nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu
Como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha.
Como uma aurora colorida e misteriosa,
Como um crepúsculo inundado de beleza e despedida,
O amor grita seu silêncio e nos dá sua música.
Nós dançamos sua felicidade em delírio
Porque somos o alimento preferido do amor,
Se estivermos também a devorá-lo.

O amor, eu não conheço.
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo,
Me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega.
Morrer de amor é a substância de que a vida é feita.
Ou melhor, só se vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.

Referências:

Markus Sandner:

http://www.markussandner.de/

Ramiro Bernabó:

http://ramirobernabo.com/

Cristina Roese:

http://www.mamcampinas.com.br/de-1980-a-1989/131-1983-cristina-roese.html